O caminho paradoxal do sábio

No Tao Te Ching, obra magnânima da sabedoria taoísta, é dito que o sábio age através da não-ação, ensina através da não-palavra, obtém sem possuir, sem expectativas e sem apego; por não se apegar às posses, ao lucro e à fama, ele prospera. É um grande paradoxo, difícil de se entender, mas cheio de sabedoria e muito importante de se praticar!

Não-ação é a tradução da máxima taoísta “wu wei”, que é a base da atuação do sábio. Qualquer ação surge da intenção de nossas mentes. Ao desejarmos alguma coisa, surge o impulso da ação, portanto, a ação é fruto da intenção. A intenção, por sua vez, surge do emaranhado de informações que temos na mente colhidas através dos cinco sentidos, onde a partir da diferenciação subjetiva que fazemos entre “bom” e “ruim”, geramos a intenção tendenciosa. Portanto, a mente discrimina e mantém preferências o tempo todo – ela identifica, conceitualiza, classifica e gera preferências. Podemos ver, então, como nossas ações são centradas no ego, como são parciais e tendenciosas. É a mente apegada ao eu.

Quando é dito que o sábio age através da não-ação, significa que a raiz de suas ações não está centrada no ego. Ele segue o fluxo da vida sem se apegar. A mente do sábio não é diferente da mente do homem comum: é parcial e tendenciosa do mesmo jeito. Porém, o sábio não se apega à mente ou ao eu e, portanto, pode utilizar os recursos mentais de forma apropriada. Por não se apegar às suas preferências, a energia mental é desobstruída; por não se apegar às classificações, não há preconceito e a mente não se fixa às crenças limitantes. Sem apego, ele não cria obstáculos em seu caminho e, portanto, a prosperidade e o sucesso ocorrem naturalmente, sem nenhum esforço artificial.

Não-ação tem o sentido de não agarrar. Quando classificamos os fenômenos, nós interrompemos um fluxo, da mesma forma que se tentarmos segurar o vento, o exterminamos. Os fenômenos são o que são, nada mais do que isso. Além disso, o seu surgimento está além da nossa compreensão intelectual. O julgamento que fazemos dos fenômenos é uma tentativa de conceitualizá-los baseada em nossa subjetividade e, portanto, fadada ao erro. Se você diz que algo é bom, automaticamente, cria-se um parâmetro para que outras coisas sejam ruins e vice-versa. Todas as classificações seguem esse mecanismo.

No filme “O Mestre das Armas” do Jet Li, um mestre japonês fala sobre as propriedades do chá que está sendo oferecido ao chinês Huo Yanjia, enaltece várias qualidades do chá e diante disso o chinês diz: “é apenas chá. O chá não faz julgamento sobre si mesmo e eu escolho não fazê-lo também”. Não que o sábio tenha o paladar insensível para os alimentos saborosos, mas ele aprecia aquilo que está diante dele sem discriminar e sem comparar com outros tipos. Essa atitude neutra, que sabe usufruir das coisas como são sem julgamentos e sem gerar exclusão é a não-ação.

Em relação a si mesmo, se você se reconhece como bom, inteligente, habilidoso ou seja o que for, automaticamente, é criado um distanciamento entre você e o meio, e tudo o que foi conquistado devido a esse inter-relacionamento é perdido. Afinal, o mérito depende de vários fatores e se você se enaltece ou se inferioriza, você quebra o elo. Esse reconhecimento fixa a sua crença e a sua realidade, desintegrando o mérito conquistado, que não existe por si só. Você se torna um desmerecedor e anula o mérito. Se você atribui-se, ao contrário, qualidades negativas como ruim, burro ou fracassado, igualmente estará fixando a sua crença e impedindo qualquer desenvolvimento.

Exemplificando com a prática do Tai Chi Chuan ou de outras artes marciais, se compararmos a nossa performance com a de um colega, com a do professor ou com a nossa própria expectativa, estaremos fixando as nossas mentes na dualidade: minha performance X outra performance; boa X ruim. Quer seja a crença de que estamos bons ou ruins, estaremos colocando o obstáculo da conceitualização e, a partir desse ponto, interrompemos a naturalidade. Sem naturalidade, não há mais o jogo de Yin e Yang, ficamos presos na aparência e o Tai Chi Chuan se torna duro, sem vida, uma tentativa.

Para a prática espiritualista, de modo geral, o essencial é abandonar a aparência subjetiva e habitar na naturalidade. Tai Chi é liberdade, espontaneidade. Apenas ser. Os fenômenos sendo o que são, sendo as palavras tão limitadas e as nossas mentes tão subjetivas, qual o propósito de falar, comparar ou justificar se estes afastam ainda mais daquilo que é? As palavras e os pensamentos, em sua maioria, são dispensáveis. Os murmurinhos mentais que acompanham nossas ações também não contribuem. Se houver um desenvolvimento meritório, é algo espontâneo no qual a mente não pode se fixar. O mérito não pode coexistir com a mente apegada ao ego. Por isso, o ensinamento não é nada mais do que isto: simplesmente fazer, sem nada mais fazer.

Marco Moura

Compartilhe!