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Contribuições budistas para uma mente feliz

O ensinamento básico do budismo se refere a como a infelicidade inerente ao ser humano é continuamente alimentada por cada um de nós quando permanecemos desatentos. Tendemos a ser tendenciosos demais em relação às situações cotidianas, classificando tudo à nossa volta em termos de bom ou ruim, belo ou feio, superior ou inferior. Raramente temos uma postura neutra e consciente para enxergar as coisas como são.

Desse modo, reagimos com apego (quando achamos que algo é bom) ou aversão (quando achamos que é ruim) – sem percebermos, estamos educando as nossas mentes para serem discriminatórias e impulsivas. Uma mente impulsiva vive oscilando, dispersa, perdida em seus devaneios, sendo arrastada pelos seus desejos. Há um ditado bastante usado nas recentes pesquisas científicas relacionadas ao bem estar: “a wandering mind is an unhappy mind” (“uma mente dispersa é uma mente infeliz”).

Nós só nos libertamos dessa situação quando tomamos a atitude de acordar, de sair dessa agitação infligida pela mente e de viver o dia-a-dia com maior consciência. Ao disciplinarmos nossas mentes para permanecerem conectadas com o aqui e agora, deixamos de alimentar suas ilusões, suas expectativas e seus medos.

Mestre Jiru

O Mestre Jiru, monge budista residente nos EUA, deu três dicas importantes a esse respeito em sua recente visita ao Brasil no Templo Tzong Kwan:

1) Seja disciplinado. Isso é fundamental para progredir e desenvolver uma mente estável. Estabeleça horários, regras para a sua prática formal de meditação e cumpra com boa vontade.

2) Conheça o método. Se você for alguém esforçado e interessado, poderá ter a sua prática reforçada por leituras, participação em palestras, pesquisas sobre o tema (mente, meditação). Você ganha mais confiança para seguir em frente.

3) Pratique a atenção plena no dia-a-dia. Esteja atento, observe as tendências da sua mente e saiba parar no momento oportuno. A mente se perde rapidamente em meio aos prazeres como comida e diversões quaisquer. Acostume-se com a simplicidade: alimentação simples, diversões moderadas.

Praticando dessa maneira, estaremos criando o ambiente propício para o desenvolvimento das qualidades mentais necessárias para um estado de felicidade e paz.

Marco Moura

O caminho budista

Budismo no Templo Tzong Kwan

Religião, filosofia, doutrina – não há uma definição certeira para o budismo. Independente de rótulos, saber que a sua prática conduz à felicidade já é o suficiente. Vejo o budismo, acima de tudo, como um caminho realista para enxergar a vida como ela é. Isso evita que criemos percepções equivocadas da realidade e, sem esse equívoco, podemos desmanchar nossas falsas expectativas, podemos compreender onde os nossos passos podem nos levar e seguir conscientemente rumo à fonte da real felicidade.

O budismo nos ensina a ver além das aparências. Enquanto seguimos a vida sem atenção, vemos o mundo como uma realidade pronta onde o nosso papel é achar o nosso espaço nele. Olhando para além das aparências, vemos que o mundo não está pronto, ao invés, está sendo construído e atualizado constantemente segundo a lei de causa e efeito. Nós também somos produtos dessa lei e estamos integrados à realidade onde estamos inseridos. O nosso papel diante dessa realidade não é sermos conformistas; é compreendermos como tudo isso funciona e assumirmos a responsabilidade como agentes criadores. Nós plantamos as sementes ocultas da nossa existência. Para atuarmos com êxito no palco da vida, é preciso que tenhamos discernimento. Assim, temos um rumo, um sentido e uma perspectiva para um estado além de todas essas condições insatisfatórias. Estamos no caminho da iluminação.

Não vejo promessas no budismo. A iluminação não é uma recompensa para quem seguir a trilha budista – é a perspectiva de um estado além de toda a construção ilusória que criamos. É bastante lógico: se o sofrimento é resultado da nossa percepção equivocada da realidade, quando essa percepção é superada, o sofrimento se esvai. Não há nada de surreal nisso. O budismo não incentiva a fé cega, mas a lucidez.

O público que assiste a uma peça de teatro não sabe como funcionam os bastidores. Ele vê o cenário montado, as encenações, mas não sabe como tudo funciona. O ensinamento básico de Buda é que tudo o que existe é sustentado por causas e condições. A causa é o fator direto que manifesta o fenômeno, as condições são os fatores indiretos. Os nossos pensamentos, falas e ações surgem de causas e condições e, ao mesmo tempo, são investimentos em novas causas. A semente faz surgir a planta, que gera novas sementes. A vida é um ciclo.

Aprender a ter atenção plena no dia-a-dia cria sementes de lucidez. Uma pessoa lúcida e tranquila se liberta das armadilhas do pensamento e emoções conflitantes. A pessoa não se torna fria, ao contrário, aprende a aguçar ainda mais a sua sensibilidade. Aprende também a ter foco e a lidar com a sua energia mental. Portanto, em situações difíceis onde a mente poderia ser bombardeada com pensamentos e emoções descontroladas que amplificariam o problema, o meditador tem discernimento para injetar a sua energia mental de modo adequado. Por exemplo, ao invés da raiva descontrolada, a pessoa opta por guiar a energia da ação de forma enérgica, mas equilibrada. Ao invés do medo exagerado, pode reconhecer os riscos presentes, prestar atenção e agir com prudência, sem amplificar suas imaginações.

Dentre inúmeras práticas budistas, a meditação é uma das principais, pois ela revela o quanto nossas mentes são tagarelas e condicionadas. Por meio da meditação, as nossas mentes se purificam, se tornam mais lúcidas e o dia-a-dia se torna mais vívido. Porém, não são todos que estão abertos para esse tipo de prática, que requer responsabilidade pelos pensamentos e ações. Nem todos estão dispostos a abrir mão do comodismo de seus hábitos para assumir o seu papel como co-criador da realidade. Porém, para aqueles que reconhecem que a libertação está em suas mãos, o compromisso é assumido naturalmente.

Marco Moura